Ex-atletas olímpicas orientam jovens talentos e fortalecem liderança feminina em Dakar
Treinadoras brasileiras Maria Portela e Fabiana Silva vivem os Jogos Olímpicos da Juventude de uma nova perspectiva e ajudam jovens talentos a transformar a experiência em aprendizado para o futuro

Foto: Wander Roberto/COB
Depois de anos dedicadas à busca por resultados e à realização do sonho olímpico, Maria Portela e a Fabiana Silva viveram em Dakar 2026 um novo capítulo de suas trajetórias no esporte. Desta vez, as duas ex-atletas olímpicas estiveram do outro lado da competição: como treinadoras, compartilharam com os jovens do Time Brasil experiências acumuladas ao longo de suas carreiras para ajudar na preparação e os desafios do alto rendimento.
Representantes de modalidades diferentes, judô e badminton, Portela e Fabiana tem um ponto em comum na missão que desempenham nos Jogos Olímpicos da Juventude: mostrar que uma experiência olímpica vai muito além do resultado. Em Dakar, o trabalho envolveu orientar, transmitir confiança e ajudar os atletas a aproveitarem cada oportunidade de aprendizado, dentro e fora dos locais de competição.
Para Fabiana, que representou o Brasil nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020, realizados em 2021, retornar a um ambiente olímpico em uma função diferente tem sido especial. A treinadora acompanhou o jovem Klecivan Zaidan no badminton e procurou transmitir a ele um pouco do que aprendeu durante sua própria trajetória.
“Estar em Dakar e poder reviver o espírito olímpico e os valores do olimpismo foi uma experiência sensacional. É muito gratificante poder contribuir com essa jornada”, afirma.
Fabiana reconhece em Klecivan características que marcaram sua própria trajetória, como a dedicação e a curiosidade para estudar os adversários.
"Quando competia, eu costumava assistir a partidas no YouTube para observar jogadores, identificar características e aprender com outros atletas, e ele também é assim. Além disso, nós dois começamos nossas trajetórias esportivas em projetos sociais", disse.
No judô, Maria Portela também utiliza as lembranças da carreira como ferramenta para orientar Clarisse Vallim. Depois de três participações olímpicas, a ex-judoca agora acompanha a jovem brasileira com uma perspectiva que só quem já esteve dentro do tatame em grandes competições consegue compartilhar.
“O esporte me proporcionou uma mudança de vida, e acho um egoísmo gigante guardar isso comigo. Minha missão hoje é conectar tudo o que vivi, todas as experiências e os aprendizados, para essa nova geração”, resume.
Dentre as situações vividas em Dakar, Portela conta que, ao perceber que Clarisse estava desconfortável com a presença de uma possível adversária observando a atividade, ela recorreu à própria experiência para ajudá-la a recuperar o foco.
A orientação foi simples: aquele treino tinha um objetivo próprio e não deveria ser condicionado à presença de outras competidoras. Para Maria, esse é um dos principais desafios da nova função: direcionar a atleta sem tirar sua autonomia, mantendo a confiança necessária para que ela encontre suas próprias soluções durante a luta.
“Eu fico nervosa igual, só que não posso ficar nervosa. Tenho que acalmá-la e direcioná-la da melhor maneira possível, sem que ela perca a personalidade e a atitude”, explica.
A treinadora também reconhece características de sua própria trajetória em Clarisse. A força, a explosão e a disposição para executar determinados golpes aproximam as duas, reforçando a percepção de que sua experiência pode contribuir diretamente para o desenvolvimento da jovem judoca.
A mudança de lado também trouxe uma nova compreensão sobre a competição. Maria conta que, ao observar o esporte como treinadora, passou a refletir sobre a pressão que exercia sobre si mesma quando era atleta.
“Hoje percebo que a competição é importante, mas a gente não pode perder o cerne de tudo: não é só competição. O resultado é fundamental, mas não é tudo”, analisa.
Preparar o presente e construir o futuro
Para as duas treinadoras, participar de um evento olímpico ainda na juventude pode representar um diferencial importante na formação esportiva. Fabiana destaca que o contato com diferentes culturas, nacionalidades e modalidades amplia os horizontes dos atletas e proporciona aprendizados que ultrapassam o aspecto competitivo.
“É uma experiência única e que pode transformar a trajetória de um jovem atleta. Além da experiência competitiva, é uma oportunidade de crescimento pessoal, de troca cultural e de aprendizado”, destaca.
Maria Portela compartilha dessa visão e acredita que a vivência em Dakar pode ajudar Clarisse a chegar mais preparada a futuras competições internacionais, inclusive a uma eventual participação nos Jogos Olímpicos adultos. Ao conhecer o ambiente, experimentar a adrenalina e entender a dinâmica de um evento dessa dimensão, a judoca poderá encontrar mais familiaridade quando tiver uma nova oportunidade.
A treinadora faz questão, entretanto, de que a atleta não transforme a experiência em uma preocupação exclusiva com o futuro. Seu desejo é que Clarisse aproveite o presente e guarde boas lembranças da passagem por Dakar.
“Na minha primeira Olimpíada, o baque emocional foi muito grande e fiquei muito voltada para o resultado. Pouco lembro das coisas boas que também tiveram lá. Quero que ela tenha a experiência em si, que esteja realmente presente para além da conquista”, conta Maria.
Mulheres que abrem caminhos no esporte
A atuação das duas em Dakar também representa um movimento importante para ampliar a presença feminina em posições de liderança no esporte. Em um ambiente historicamente marcado pela predominância masculina, Maria e Fabiana enxergam a oportunidade de ocupar esses espaços como uma responsabilidade e também como uma forma de inspirar outras mulheres.
As duas treinadoras têm em comum a participação no MIRA Treinadoras, programa da área Mulher no Esporte do Comitê Olímpico do Brasil (COB), voltado ao desenvolvimento e à capacitação de mulheres para atuação como treinadoras no esporte de alto rendimento. A iniciativa proporcionou às ex-atletas não apenas ferramentas para o crescimento profissional, mas também um espaço de troca, identificação e fortalecimento de uma rede de apoio entre mulheres de diferentes modalidades.
Fabiana destaca a importância de construir essa rede e criar oportunidades para que mais mulheres cheguem às comissões técnicas e aos cargos de comando.
“Precisamos criar oportunidades e incentivar cada vez mais mulheres a ocuparem espaços de liderança e a se tornarem treinadoras. Não é um caminho fácil, mas, se não buscarmos romper essas barreiras, dificilmente conseguiremos encorajar outras mulheres”, afirma.
Maria também destaca a experiência no programa como um momento importante de sua transição de carreira. Ao compartilhar vivências com treinadoras de diferentes modalidades, percebeu que muitas enfrentavam desafios e inseguranças semelhantes, independentemente do esporte em que atuavam.
“Todas, independentemente da modalidade, tinham os mesmos desafios. Isso me fez sentir acolhida e segura. Se nós nos unirmos e buscarmos aprender umas com as outras, vamos resolver melhor os problemas e ocupar cada vez mais os espaços que podem ser nossos”, conta.
Como treinadora do feminino no judô, Maria também percebe no cotidiano a importância da representatividade. Para ela, a presença de mulheres nas comissões técnicas pode proporcionar identificação e conforto às jovens atletas, além de mostrar que a carreira esportiva pode continuar por diferentes caminhos depois da aposentadoria das competições.
“É fundamental ser referência para essas meninas. A gente merece estar aqui, por tantos anos trabalhando, estudando, buscando e se aperfeiçoando. Fico feliz por estar aqui e por representar as mulheres dessa maneira”, afirma.












